terça-feira, novembro 21, 2006

Amanhã que começou sem ela

E contudo ela não queria sair dali. Afinal de contas aquela era e sempre fora a sua única casa. Há coisas às quais tem de se ter uma certa fidelidade!
~Um novo emprego do pai exigia-lhes viver noutra cidade, um mundo totalmente desconhecido. Ela era jovem e apesar disso, ou talvez por essa razão, a mudança soava-lhe a perigo, a medos. Não. Tinha a certeza que não queria.
~Foi para o quarto. Da sua colecção organizada de vinte CD's, o sétimo era o seu preferido e a faixa três rompia agora o silêncio daquele espaço minimalista, fundindo-se com os seus pensamentos, que tão depressa se desvaneciam, ao mesmo tempo que a imaginação ensaiava contos de fadas modernos. E contudo ela permanecia sentada no chão, entre a cama e o roupeiro, por baixo do parapeito da janela, a única que iluminava aquela área tão vastamente fria.
~Um novo emprego, uma nova casa, uma nova cidade proporcionar-lhe-iam uma nova vida. um quarto mais juvenil, igual a tantos outros comprados por catálogo. Esse novo quarto encher-se-ia de CD's e inundar-se-ia de boa música, óptima para os ouvidos e para o coração, certamente apaixonado, que esta idade não perdoa.
~Mas mesmo assim, esse novo quarto, cuja porta se lhe abriria e de lá uma nova vida nasceria não eram motivos suficientes e a sua convicção permanecia tão sólida como as paredes daquela casa. Era a casa da avó paterna. A sua casa. A única que conhecera. Uma casa tão diferente das outras, agora feitas em série. Não tinham vida. E ela não queria ser como os outros jovens, nem dormir num quarto como os seus, nem tão pouco viver numa casa igual. Ela queria apenas ser ela e viver naquela casa com cheiro a alfazema e com decoração típica de avó. Ela queria continuar a dormir na sua cama de ferro, no quarto com mobília branca que se perdia no atulhado de recordações ali encafuadas, o que outrora havia sido a arrecadação.
~Nunca conhecera a mamã, mas a fotografia por cima da cómoda, com moldura dourada, parecia ter uma presença tão forte, como se ela ali sempre estivesse. E continuava sentada no chão frio, mosaico escolhido pelo avô (que Deus o guarde).
~Bateram à porta e o pai entrou. Não podia recusar o emprego, que lhe traria novas oportunidades de vida, mas também não podia tirar a sua menina daquilo que considerava verdadeiramente seu e onde se sentia bem e verdadeira.
~E lá foi o papá. De joelhos na cama e encostada ao parapeito da janela, no primeiro andar, ela acenava. Só não sabia bem se contente ou triste, afinal, tinha sido uma decisão sua. Não abdicou da sua vida simples e pacata, mas sua, tendo por isso visto o pai partir rumo a uma nova vida.

Mas será uma vida melhor, aquela que é vivida longe dos que se ama? E contudo, ela não quis sair dali.

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