segunda-feira, outubro 29, 2007
As ideias já não fluem como outrora,
e os pensamentos são despojados de conteúdo.
Talvez seja preguiça,
talvez seja cansaço.
Ou talvez seja uma ausência desmedida
de tudo quanto me é essencial.
Perco o meu discurso interno,
e perco-me a mim mesma no mundo.
Ser errante em mim emerge,
com tal brutalidade que de tudo se apodera.
Sinto-me vazia,
distante,
apagada.
Talvez seja carência,
talvez seja exaustão,
Não sei...
Mas acredito que um dia tudo passará.
Até lá fico à espera...
quarta-feira, setembro 26, 2007
O mundo é um palco, já dizia Shakespeare

Já te olhaste ao espelho? Não todos os dias antes de sair de casa, a confirmar se está tudo bem e se a imagem que os outros verão no decorrer do dia está em perfeitas condições.Pergunto se já te olhaste ao espelho. A ti. Tu. Não ele(a). Não esse que levas para a rua assim que abres a porta de casa e começas a descer as escadas do prédio ou mal entras no elevador. É esse o período de transição. Entre o actor e a personagem que se lhe entranha por vastas horas, frente a um público que assiste ao seu texto muito bem preparado. O seu papel perfeitamente desempenhado.
Porque o teu dia-a-dia é um teatro. O mundo é um palco onde todos representam e a imagem que confrontamos no espelho todas as manhãs não é o actor, mas já a personagem.
O actor, esse, ganha relevo quando é noite. Enquanto dormes. Durante essas horas de sono em que estás inactivo(a). Sem representações.
Representar o eu na vida de todos os dias, como Goffman o diria, é apresentares-te ao outro, evidenciando disponibilidade directa para encenar a comunicação, a relação entre ambos. Não és tu, mas sim aquilo que advirá com o decorrer da cena. E assim sucessivamente ao longo de todo o dia. Esse grande palco não tem reservas de cenários ou personagens. Tanto é na paragem do autocarro, como no comboio ou mesmo no trabalho.
A essência, essa permanece na penumbra, pois que nem o raio de sol mais clarividente consegue expô-la. É assim. Faz parte. Não encontramos o âmago do ser. Mas ele está lá. São essas duas naturezas do ser humano que o constituem e o permitem ser tão complexo. Apenas uma é exterior, e outra interior, latente. E é sempre, não duvides, a primeira, que vês todos os dias no espelho.
«All the world's a stage,
And all the men and women merely players.
They have their exits and their entrances,
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages.»
William Shakespeare
(As You Like It (act II, scene 7))
quinta-feira, maio 24, 2007
Ni même l'un pour l'autre
Pas non plus l'un de l'autre
Etre seulement l'un à l'autre
Jusqu'à-ce que rien maintenant
Ni personne enfin, dans le silence
Survivant des deux
Ne retire provisoirement de la circulation
Tous ces mots et images excédentaires
Interférant toujours comme un bruit de fond
Qui détourne ainsi peu à peu
Le centre de gravité du vide".
Fernando Eduardo Carita, Le Salut par le Vide, 2005
segunda-feira, maio 14, 2007
terça-feira, maio 08, 2007
sexta-feira, abril 27, 2007
Experiência ?
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
A imagem perfeita
Porque tu hoje ajudaste-me a criar a imagem perfeita de ti.
De nós.
Porque a partir de hoje essa é a imagem que carregarei na memória e com ela matarei as saudades, quando me cercarem.
Tudo porque ninguém melhor que tu para me ajudar a construir tal coisa.
Para nos construir.
E sei que vamos aprender algo com isto.
Ambos.
E para melhor.
Porque hoje criámos a imagem perfeita, para mais tarde nos lembrarmos de nós com tamanha perfeição.
Porque hoje foi diferente.
[A imagem perfeita] *
Obrigada
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Estranha sensação

Experimenta permanecer imóvel, observando os gestos de um outro. Se possuíres esta peculiar sensibilidade, darás conta que simples movimentos como o virar as páginas de um livro, ou brincadeiras com determinado objecto farão com que todo o teu corpo entre numa espécie de transe espontâneo. Os teus olhos ficam o movimento enquanto leves sensações de cócegas te percorrem a espinha. E tu adormecido. Os teus músculos ficam tensos e o cérebro ensonado, preso às informações captadas pela visão. E os arrepios sucedem-se, numa ordem de sensações prazenteiras que te amarram àquela imagem, enquanto o teu corpo não se sente capaz de te responder.
Começas a sentir um súbito cansaço, enquanto a pessoa continua, distraidamente, os seus gestos que tu já não apenas observas, fundiste-te com eles. O cansaço é atacado pela sensação esporádica que ocorre na espinal-medula e que funciona como gatilho, disparando contra ti. E isso causa um sentido de êxtase inexplicável. E tu permaneces agarrado a uma imagem, que cercou todo o teu corpo, agora imóvel não por vontade própria. Parece que queres adormecer e começas a sentir uma pressão nas costas, maravilhosamente coordenada com os arrepios sucessivos.
E isto no comboio. E tu em transe. E tudo numa fracção de segundos. E ali dá-se-te um orgasmo meramente mental.
*
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Exegese

Se ao menos pudesse escapar. Fugir desta estranha pressão que insiste e persiste. Me assola.
Se ao menos tivesse forças para lutar. Já disse que não quero. Porque insistes? Não quero sair do meu universo cor-de-rosa. Quero continuar a brincar com as bonecas. Quero ficar ali, imóvel, olhando para o mundo que eu mesma construí, junto daqueles que convidei para a minha festa. E só esses. Para quê mais?
Era bom se eu pudesse ficar assim para sempre. Não era mãe? Gostavas tu e gostava eu. Não quero ter que sair da minha concha. Não porque não queira expandir-me a mim mesma, mas sim porque não quero expandir o meu universo. Corro risco de desmoronar toda uma década - quase duas - de trabalho.
Deixa-me ficar por aqui, mamã. Não me obrigues a seguir caminho, por esse corredor longo, e sozinha. Ao menos anda comigo. Se fores comigo eu já não receio tanto. Só não quero ter que o atravessar sozinha.Melhor era se nem tivesse que abrir essa porta. O meu quarto serve-me perfeitamente. Caibo eu e tudo o que preciso. Não me falta nada. Ou talvez falte, mas nunca saberei, se nada mais conhecer e aí não é verosímel dizer que sinto falta disto ou daquilo. Mas isso basta-me. O que tenho chega. E o tempo que tenho também.
Não, não quero mais. Posso parar por aqui, por favor? Desliga lá a máquina do tempo. Podemos parar por aqui, mesmo que o mundo avance... Se ao menos a minha máquina do tempo tivesse livro de instruções... Acho que nem botão para desligar tem! Também verdade seja dita: nunca o procurei. Talvez porque até hoje nunca tenha precisado dele. Para mais, não senti, até hoje, grandes dramatismos temporais.
Mas de repente bateu aquela sensação: preciso de uma pausa. Algo viciante. Algo real. Só quero que nos enclausurem numa bolha de ar, só nossa, só minha. Porque vocês fazem parte do meu universo, e por isso fazem parte da minha vida, de mim. São meus.
Podemos parar... Por favor?

