sexta-feira, fevereiro 16, 2007

A imagem perfeita


Porque tu hoje ajudaste-me a criar a imagem perfeita de ti.
De nós.
Porque a partir de hoje essa é a imagem que carregarei na memória e com ela matarei as saudades, quando me cercarem.
Tudo porque ninguém melhor que tu para me ajudar a construir tal coisa.
Para nos construir.
E sei que vamos aprender algo com isto.
Ambos.
E para melhor.
Porque hoje criámos a imagem perfeita, para mais tarde nos lembrarmos de nós com tamanha perfeição.
Porque hoje foi diferente.

[A imagem perfeita] *

Obrigada

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Estranha sensação



Experimenta permanecer imóvel, observando os gestos de um outro. Se possuíres esta peculiar sensibilidade, darás conta que simples movimentos como o virar as páginas de um livro, ou brincadeiras com determinado objecto farão com que todo o teu corpo entre numa espécie de transe espontâneo. Os teus olhos ficam o movimento enquanto leves sensações de cócegas te percorrem a espinha. E tu adormecido. Os teus músculos ficam tensos e o cérebro ensonado, preso às informações captadas pela visão. E os arrepios sucedem-se, numa ordem de sensações prazenteiras que te amarram àquela imagem, enquanto o teu corpo não se sente capaz de te responder.

Começas a sentir um súbito cansaço, enquanto a pessoa continua, distraidamente, os seus gestos que tu já não apenas observas, fundiste-te com eles. O cansaço é atacado pela sensação esporádica que ocorre na espinal-medula e que funciona como gatilho, disparando contra ti. E isso causa um sentido de êxtase inexplicável. E tu permaneces agarrado a uma imagem, que cercou todo o teu corpo, agora imóvel não por vontade própria. Parece que queres adormecer e começas a sentir uma pressão nas costas, maravilhosamente coordenada com os arrepios sucessivos.

E isto no comboio. E tu em transe. E tudo numa fracção de segundos. E ali dá-se-te um orgasmo meramente mental.

*

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Exegese


[Exegese sobre uma infância há muito adormecida,
por ora espertada]

Se ao menos pudesse escapar. Fugir desta estranha pressão que insiste e persiste. Me assola.
Se ao menos tivesse forças para lutar. Já disse que não quero. Porque insistes? Não quero sair do meu universo cor-de-rosa. Quero continuar a brincar com as bonecas. Quero ficar ali, imóvel, olhando para o mundo que eu mesma construí, junto daqueles que convidei para a minha festa. E só esses. Para quê mais?
Era bom se eu pudesse ficar assim para sempre. Não era mãe? Gostavas tu e gostava eu. Não quero ter que sair da minha concha. Não porque não queira expandir-me a mim mesma, mas sim porque não quero expandir o meu universo. Corro risco de desmoronar toda uma década - quase duas - de trabalho.
Deixa-me ficar por aqui, mamã. Não me obrigues a seguir caminho, por esse corredor longo, e sozinha. Ao menos anda comigo. Se fores comigo eu já não receio tanto. Só não quero ter que o atravessar sozinha.Melhor era se nem tivesse que abrir essa porta. O meu quarto serve-me perfeitamente. Caibo eu e tudo o que preciso. Não me falta nada. Ou talvez falte, mas nunca saberei, se nada mais conhecer e aí não é verosímel dizer que sinto falta disto ou daquilo. Mas isso basta-me. O que tenho chega. E o tempo que tenho também.
Não, não quero mais. Posso parar por aqui, por favor? Desliga lá a máquina do tempo. Podemos parar por aqui, mesmo que o mundo avance... Se ao menos a minha máquina do tempo tivesse livro de instruções... Acho que nem botão para desligar tem! Também verdade seja dita: nunca o procurei. Talvez porque até hoje nunca tenha precisado dele. Para mais, não senti, até hoje, grandes dramatismos temporais.
Mas de repente bateu aquela sensação: preciso de uma pausa. Algo viciante. Algo real. Só quero que nos enclausurem numa bolha de ar, só nossa, só minha. Porque vocês fazem parte do meu universo, e por isso fazem parte da minha vida, de mim. São meus.
Podemos parar... Por favor?