terça-feira, fevereiro 13, 2007

Exegese


[Exegese sobre uma infância há muito adormecida,
por ora espertada]

Se ao menos pudesse escapar. Fugir desta estranha pressão que insiste e persiste. Me assola.
Se ao menos tivesse forças para lutar. Já disse que não quero. Porque insistes? Não quero sair do meu universo cor-de-rosa. Quero continuar a brincar com as bonecas. Quero ficar ali, imóvel, olhando para o mundo que eu mesma construí, junto daqueles que convidei para a minha festa. E só esses. Para quê mais?
Era bom se eu pudesse ficar assim para sempre. Não era mãe? Gostavas tu e gostava eu. Não quero ter que sair da minha concha. Não porque não queira expandir-me a mim mesma, mas sim porque não quero expandir o meu universo. Corro risco de desmoronar toda uma década - quase duas - de trabalho.
Deixa-me ficar por aqui, mamã. Não me obrigues a seguir caminho, por esse corredor longo, e sozinha. Ao menos anda comigo. Se fores comigo eu já não receio tanto. Só não quero ter que o atravessar sozinha.Melhor era se nem tivesse que abrir essa porta. O meu quarto serve-me perfeitamente. Caibo eu e tudo o que preciso. Não me falta nada. Ou talvez falte, mas nunca saberei, se nada mais conhecer e aí não é verosímel dizer que sinto falta disto ou daquilo. Mas isso basta-me. O que tenho chega. E o tempo que tenho também.
Não, não quero mais. Posso parar por aqui, por favor? Desliga lá a máquina do tempo. Podemos parar por aqui, mesmo que o mundo avance... Se ao menos a minha máquina do tempo tivesse livro de instruções... Acho que nem botão para desligar tem! Também verdade seja dita: nunca o procurei. Talvez porque até hoje nunca tenha precisado dele. Para mais, não senti, até hoje, grandes dramatismos temporais.
Mas de repente bateu aquela sensação: preciso de uma pausa. Algo viciante. Algo real. Só quero que nos enclausurem numa bolha de ar, só nossa, só minha. Porque vocês fazem parte do meu universo, e por isso fazem parte da minha vida, de mim. São meus.
Podemos parar... Por favor?

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