
Já te olhaste ao espelho? Não todos os dias antes de sair de casa, a confirmar se está tudo bem e se a imagem que os outros verão no decorrer do dia está em perfeitas condições.Pergunto se já te olhaste ao espelho. A ti. Tu. Não ele(a). Não esse que levas para a rua assim que abres a porta de casa e começas a descer as escadas do prédio ou mal entras no elevador. É esse o período de transição. Entre o actor e a personagem que se lhe entranha por vastas horas, frente a um público que assiste ao seu texto muito bem preparado. O seu papel perfeitamente desempenhado.
Porque o teu dia-a-dia é um teatro. O mundo é um palco onde todos representam e a imagem que confrontamos no espelho todas as manhãs não é o actor, mas já a personagem.
O actor, esse, ganha relevo quando é noite. Enquanto dormes. Durante essas horas de sono em que estás inactivo(a). Sem representações.
Representar o eu na vida de todos os dias, como Goffman o diria, é apresentares-te ao outro, evidenciando disponibilidade directa para encenar a comunicação, a relação entre ambos. Não és tu, mas sim aquilo que advirá com o decorrer da cena. E assim sucessivamente ao longo de todo o dia. Esse grande palco não tem reservas de cenários ou personagens. Tanto é na paragem do autocarro, como no comboio ou mesmo no trabalho.
A essência, essa permanece na penumbra, pois que nem o raio de sol mais clarividente consegue expô-la. É assim. Faz parte. Não encontramos o âmago do ser. Mas ele está lá. São essas duas naturezas do ser humano que o constituem e o permitem ser tão complexo. Apenas uma é exterior, e outra interior, latente. E é sempre, não duvides, a primeira, que vês todos os dias no espelho.
«All the world's a stage,
And all the men and women merely players.
They have their exits and their entrances,
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages.»
William Shakespeare
(As You Like It (act II, scene 7))
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